Noite da Alma - Booktrailer

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Uma Prendinha de Natal para todos vós! ^_^

   Olá a todos :)

   Pois é… como muitos de vocês sabem faz este mês 1 Ano que lancei o meu 1º livrinho, “Noite da Alma”.

   O ano 2012 foi um ano cheio de trabalho e de grandes conquistas. Muitas ideias, muitas esperanças, muitos desafios e expectativas, algumas alcançadas, outras nem por isso.

   Assim, resolvi dar a todos os que me acompanharam (de perto e de longe) nesta laboriosa aventura que foi editar um livro uma pequena Prendinha de Natal.

   Como todos sabemos, para a maioria dos autores portugueses, decidir editar um livro em Portugal pode comparar-se, em muitos aspectos, a dispormo-nos a travar uma pesada batalha. Nada é fácil ou acontece como esperávamos… e, com excepção daqueles que nos amam e daqueles que nos lêem, os aliados são muito poucos.

   Por isso, dedico esta prenda a todos vós. 
   . A todos os que leram “Noite da Alma”, quer tenham gostado quer não… 
   . A todos os que me escreveram, dando-me as vossas opiniões… 
  . E, especialmente, a todos os que ficaram à espera de uma continuação.

   Isto porque, como leitora compulsiva, sei o quanto é triste ficarmos pendurados a meio de uma história que nos despertou o interesse.

    Mas e então? Que raio de prenda é esta? ^_^

    Pois é… se calhar até já adivinharam. :)

   A partir de hoje, todos os dias colocarei online 1 capítulo de “Tempo da Alma”, o livro que dá continuação a “Noite da Alma”, o qual poderão ler online, gratuitamente.

   Trata-se de uma versão completa, sem os cortes que necessariamente terão de ser feitos quando finalmente o editar. Sim, porque não é que tenha desistido de o editar. Simplesmente não sei quando é que será possível fazê-lo, e não vos quis deixar à espera por mais tempo.

   Os capítulos ficarão online até dia 15 de Janeiro de 2013 (isto, é claro, se o mundo não acabar entretanto ^_^).

   Poderão aceder-lhes através do meu blog ‘Momento a Momento’, ou no Site Oficial.

   Espero que gostem e deixem as vossas opiniões! Gosto sempre de saber o que pensam sobre o meu mundo ^_^



Ah… E Feliz Natal (adiantado ^_^)!






terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

CONTO: Guardião

Guardião




O mundo que me rodeia é estranhamente silencioso.
O meu olhar, absorto, encontra-se fixo numa simples sanduíche de pão de forma com manteiga de amendoim crocante, compota de morango e alface: a minha sanduíche preferida e, como é lógico pela estranheza do conjunto dos ingredientes, um segredo bem guardado.
- Li! Também vens, não vens?
Olho em meu redor. Os rostos que agora me observam, com expressões expectantes e interessadas, são me conhecidos e familiares mas, mesmo assim, sinto-me levemente perdida.
- Ir…?! Onde?
- Ao café, depois das aulas! - responde-me uma voz impaciente, como se tivesse acabado de me informar de algo que era minha obrigação saber, e uma mão quente e pesada pousa sobre o meu ombro, sobressaltando-me.
- É claro que ela vai! - responde uma voz quente e calorosa, a qual agradeço mentalmente. De todos os rostos que me rodeiam, este é o que me é mais querido. Vera é uma verdadeira amiga do peito. E a conversa prossegue, as palavras alegres e excitadas das minhas colegas vibrando-me nos ouvidos, deixando-me confusa.
- Será que ele também vem?
- Não sei porque não há-de vir. O Marcus e os outros já confirmaram.
- Ah! Só espero que tenhas razão! E se ele calhar sentado ao meu lado?! Só de pensar fico toda arrepiada!
- Eu acho que era capaz de desmaiar!
- Ele tem de vir! - tornou outra voz esperançada e, num movimento de cabeça que sacudiu diversas madeixas de caracóis alourados, olhos verdes e brilhantes de ansiedade voltam a fixar-se sobre a minha pessoa. - Li! Tens de o arrastar! Custe o que custar!
Pestanejo repetidamente e o súbito silêncio que me rodeia deixa-me ainda mais confusa. Observo os rostos ansiosos e expectantes das raparigas que me rodeiam e franzo a testa sem compreender.
- Arrastar… quem? - questiono inocentemente, e expressões de desagrado e desprezo substituem as que até ainda há pouco me observavam com esperança.
- Nem sei para que é que perdemos tempo com ela!
- Irra que é mesmo idiota!
- Se não é, imita muito bem.
- Egoísta! É o que ela é!
E, por entre comentários do género, vejo-me subitamente abandonada, sentada à mesa do refeitório, onde o burburinho constante é testemunha mais do que suficiente de que nos encontramos na hora do almoço.
Vera suspira pesadamente e deixa-se sentar na cadeira ao meu lado. Fito-a numa questão silenciosa, forçando o cérebro de modo a tentar compreender o que acaba de acontecer, e ela volta a suspirar.
- Às vezes, Li, és mesmo insensível - comenta num tom exasperado e, embora saiba que ela tem razão, sinto-me ofendida com a sua crítica.
- Porquê? O que é que eu fiz?
Vera dirige-me um olhar severo mas, perante a minha expressão de incompreensão, desiste de me castigar.
- Nada… suponho. Mas logo agora que a tua fama estava a melhorar é que resolves desagradá-las… Enfim, sempre soube que não tinhas nascido para ser popular. Mas pensei que este ano talvez pudesses deixar de ser a coitada da escola. - Amuei, cruzando os braços, e Vera respirou fundo, passando uma mão carinhosa pelos meus cabelos. - Seja como for, Li, se estás zangada com ele o melhor é fazeres as pazes. Não não me parece que sejas pessoa de guardar rancor. Vai acabar por te corroer por dentro.- declarou num tom suave e solícito que, uma vez mais, não compreendi.
Contudo, quando me voltei para a questionar, o toque soou estridentemente, silenciando os ruídos do mundo e, instantes depois, juntávamo-nos à torrente estudantil que entupia os corredores e regressávamos à sala de aula.
Fugi mal tocou para a saída. Fugi inclusive de Vera. Não queria ir a café nenhum. Muito menos para receber olhares e expressões de desprezo, ou comentários desagradáveis. Aliás, o que é que as levara a convidarem-me em primeiro lugar? Nunca pertencera ao seu grupo. Tudo o que desejava era passar despercebida e que me deixassem em paz, de forma a que a minha vida académica pudesse terminar tal como começara: de modo incógnito e pacífico. De qualquer forma, naquele momento, não me sentia capaz de fingir ser quem não era. Não quando carregava o peso de um segredo assustador como aquele que, desde o dia anterior, andava às reboletas na minha cabeça.
Foi com receio que abri a porta de casa, e com mais receio ainda que me dirigi ao meu quarto. Abri a porta devagar, silenciosamente, e espreitei antes de entrar. O suspiro que me deixou os lábios foi de profundo alívio. Estava tudo na mesma, notei… Desta vez nada fora mudado.
Pousei a mala da escola em cima da secretária e o meu olhar recaiu sobre a cama que a minha irmã ocupara, antes entrar para a Universidade. O arrepio que me percorreu deixou-me nervosa e decidi ignorar aquela parte do quarto. Entretive-me a tirar os livros da mala e a preparar-me para fazer os deveres de casa… Não pensaria mais naquele assunto. Fingiria não saber de nada! Cumpriria a minha rotina diária como sempre acontecia e, quando os meus pais chegassem, já teria feito os trabalhos de casa e posto a mesa para o jantar.
Os meus pensamentos e intenções fragmentaram-se de repente quando dei de caras com a prova irrefutável de que algo de estranho e claramente errado estava a acontecer. No fundo da minha mala, a sanduíche de manteiga de amendoim e compota de morango observava-me ameaçadoramente.
Fechei a mala de imediato, o coração batendo-me desenfreado contra o peito. Tivera esperanças de a ter imaginado! Porque não fora eu quem a pusera ali dentro! Não fora eu quem a preparara! E, juntamente com todos os outros estranhos acontecimentos que ultimamente me rodeavam, aquela era apenas mais uma prova. Só podia concluir o inevitável: O meu quarto estava assombrado! Eu estava assombrada!
Passei uma mão trémula e húmida pelo rosto.
No dia anterior, a meio da noite, acordara com o som de passos, e depois a luz do candeeiro, que ficava do outro lado do quarto, fora subitamente acesa! Encolhera-me por entre os lençóis, puxando-os até às orelhas. Fechara os olhos com força e desejara com fervor ser capaz de deixar de existir, por instantes. Os passos tinham-se aproximado da minha cama e quase podia jurar que algo me tocara, ao de leve. E depois, naquela manhã, quando abrira a mala para tirar o caderno referente à aula do primeiro tempo, encontrara a sanduíche, feita tal como eu gostava; um segredo acerca do qual só a minha mãe tinha conhecimento.
O toque do telemóvel assustou-me e procurei-o nervosamente, por entre os bolsos da mala. O nome de Vera brilhava no ecrã.
- Sim! - exclamei, ainda sob sobressalto, e os ruídos de fundo característicos de um local público chegaram-me do outro lado da linha.
- Li! Onde raio é que estás quando devias estar aqui?? Está cá toda a gente! Mexe-me esse rabo e põe-te aqui imediatamente! - ordenou-me num tom imperial e, logo a seguir, desligou.
Por momentos ainda fiquei pendurada no pequeno telemóvel, escutando o som intermitente da linha que caíra. Depois enfiei à pressa a carteira e as chaves dentro da mala e quase corri para fora do quarto. Qualquer coisa menos ficar ali, sozinha!, pensei com o coração a bater-me na garganta. E, instantes depois, estava de novo na rua, encolhendo-me contra o vento frio que soprava. Imediatamente, senti-me mais segura, embora soubesse que, mais tarde ou mais cedo, teria de regressar ao quarto assombrado.
Quando cheguei ao café do costume espreitei através da montra, timidamente. O grupo formado pelos meus colegas distinguia-se à distância e as suas vozes alegres ouviam-se mesmo na rua. Com um suspiro empurrei a porta de vidro, cujo guizo anunciou imediatamente a minha presença, e uma rapariga forçou um sorriso, dando-me as boas vindas. O mais certo era estar farta de nós e das nossas algazarras, e ocultar algures dentro de si o desejo profundo de nos ver pelas costas. Mas trabalho é trabalho, ou pelo menos era o que o meu pai nos dizia constantemente, e é o trabalho que nos põe o pão na mesa.
Vera avistou-me rapidamente e acenou-me com entusiasmo. Fiquei imediatamente agradecida pela sua presença e pelo apoio que ela implicava. Estava bem ciente de que não pertencia àquele mundo e, como qualquer extraterrestre, temia as represálias dos seres nativos que o habitavam.
Com um ‘boa tarde’ sumido, deslizei para o banco a seu lado e suspirei de alívio quando ninguém pareceu ter-me escutado.
Ali, entre chávenas de café e fatias de bolo caseiro, rapazes e raparigas da minha idade conviviam alegremente, partilhando os seus mundos que, ao contrário do meu, encaixavam na perfeição uns com os outros. Reconheci imediatamente o grupo que me tinha abordado, à hora do almoço. Contudo, naquele momento, o foco da sua atenção estava longe de ser alguém tão insignificante como eu. E os rapazes com quem conversavam esforçavam-se arduamente por serem dignos do seu interesse.
- Ele veio, já viste? - comentou Vera num sussurro sonhador. - Nem sabes a sorte que tens! E por isso devias ser um bocadinho mais compreensiva com o resto de nós, pobrezinhas, que só o podemos admirar de longe. Nem sabes as invejas que tenho!
O meu olhar vagueou pelas mesas que tinham sido arrastadas e unidas de modo a formar um comprido corredor.
Ele quem…?, de entre tantos eles? E no que é que eu tinha sorte? Para não falar em invejas de quê!?
Vera suspirou e deixei-me deslizar até à ponta do banco, como se desejasse desaparecer por baixo da mesa. Lugares como aquele eram um verdadeiro inferno para pessoas com uma personalidade introvertida como a minha.
- Chama-o, Li! Só para ele olhar para aqui! - pediu-me numa expressão de súplica e, uma vez mais, fitei-a sem compreender.
- De quem é que estás a falar?
A expressão de Vera modificou-se imediatamente e não pude deixar de notar em como se tornara parecida às das minhas colegas, quando me tinham abandonado à mesa do almoço.
- Às vezes és mesmo irritante! Bem sei que estás zangada! Mas isto é infantilidade! Até quando é que vais fingir que ele não existe? - indagou severamente, erguendo o tom de voz e, quando dei conta, um silêncio sepulcral rodeava-me e dezenas de olhos fixavam-se em mim em expressões de acusação e condenação silenciosas.
As faces pegaram-me fogo e senti-me tremer. Sem pensar no que fazia, ergui-me do banco e apertei a mala com força.
- Vocês…! Eu sei lá do que é que vocês estão a falar!! - gritei exasperada, fechando os punhos e os olhos com força, e o nó amargo que me apertou a garganta obrigou-me a fugir daquele lugar.
Foi com dificuldade que contive as lágrimas, o ar frio do fim de tarde ajudando-me a recuperar a calma. Deambulei pelas ruas sentindo-me magoada e triste… e logicamente confusa.
Ao contrário do que planeara, quando regressei a casa os meus pais já tinham chegado. Pedi desculpas pelo atraso e ajudei a minha mãe a pôr a mesa. Pelo menos, enquanto ocupava o cérebro com actividades com aquela, mundanas e diárias, não pensava no resto; nem na vergonha que passara nem no quarto assombrado que me aguardava. Só quando nos sentámos à mesa é que reparei no lugar que fora colocado a mais. O arrepio que me percorreu deixou-me o estômago enrolado e, com urgência, busquei o rosto dos meus pais, à espera que alguém o notasse. O que não aconteceu… Com um suspiro o meu olhar de comiseração voltou-se para a minha mãe. Sabia que ela sentia falta da minha irmã, que saíra de casa no início do ano. Aquele costumava ser o lugar dela… E talvez a minha mãe se tivesse distraído. Ou talvez desejasse apenas recordá-la com aquele gesto.
Quando acabámos de arrumar a louça do jantar já eram perto das dez da noite e, com aquela última tarefa, esgotaram-se as minhas desculpas.
Por instantes ainda me senti tentada a partilhar os meus medos, mas depois… quem é que iria acreditar numa insanidade daquelas? Um quarto assombrado! Sinceramente! Loucura, esquizofrenia, distúrbio de personalidade, isso sim! Seriam o meu veredicto, com toda a certeza. Por isso remeti-me ao silêncio com um suspiro pesado, e praticamente me arrastei até à porta do quarto.
Tal como fizera antes, primeiro espreitei e, ao ver que a dependência estava vazia, entrei pé ante pé. Depois acendi tudo o que eram luzes de candeeiros e enchi-me de coragem para espreitar debaixo das camas e dentro do armário. Como era lógico e seria de esperar, nada! Respirei fundo, aliviada, e resolvi fazer os trabalhos de casa. Pelo menos tinha de concluir os que eram para ser apresentados no dia seguinte, ou teria alguns zeros na caderneta…!
Não sei como adormeci… nem o que é que me despertou.
Sei que de repente me endireitei num salto, como se alguém tivesse gritado o meu nome, e só então compreendi que estivera a dormir. Ainda me encontrava sentada à secretária, a cadeira dura magoando-me o rabo. E a sensação de algo a deslizar-me pelos ombros deixou-me o coração a bater a 1100 à hora! Em câmara lenta obriguei o pescoço enrijecido a mover-se e a rodar, até que o meu olhar ficou preso sobre o que, irrefutavelmente, era o meu roupão de quarto. Alguém me cobrira, concluí com um suspiro. Provavelmente a minha mãe, ao espreitar-me antes de se ir deitar e ao verificar que eu adormecera.
O som de um leve desfolhar deixou-me novamente sob sobressalto e, desta vez, não fui capaz de deixar de tremer. Por instantes deixei-me ficar imóvel, aguardando a constância do silêncio que me garantiria que eu me enganara e imaginara o ruído que tanto me assustara. Mas, para meu desespero, instantes depois ele voltou a repetir-se. Quis gritar e fugir o mais depressa possível, e foi com dificuldade que optei pela opção mais digna e corajosa, obrigando-me a movimentar a cabeça novamente e a olhar na direcção da cama do lado.
A luz do candeeiro estava acesa. A mesma que vira acesa na noite passada. E, por entre o batimento enlouquecido e ensurdecedor do meu coração, os meus olhos incrédulos e aterrorizados viram o que me pareceu ser um vulto, deitado sobre a cama. Engoli em seco, incapaz de deixar de tremer. Só podia estar a enlouquecer! E no entanto, o leve desfolhar repetiu-se, contrariando-me imediatamente.
- Quem és tu…? - A pergunta deixara-me os lábios num tom de voz quebrado e rouco, antes mesmo de me ter consciencializado do que fizera. E, para meu pânico, o vulto pareceu ouvir-me, pelo que se deteve por momentos para, logo a seguir, se voltar na minha direcção.
- Quem sou eu…?! Estás a falar a sério?
Pestanejei repetidamente. Ainda estaria a sonhar? Só podia, concluí! Sonhara que acordara mas na verdade ainda estava a dormir!
Ele voltou a mover-se, deixando-me à beira do pânico, e pareceu-me sentar-se.
- Isso é a única coisa que tens para me dizer? - indagou, num tom agreste e magoado. E, embora a sua voz fosse profunda e quente, senti-me completamente gelada. Um suspirou deixou-lhe os lábios, e pareceu-me que ele se inclinara para a frente, apoiando a cabeça sobre as mãos. - Não sei mais o que fazer… Nunca desejei nada disto… Nunca foi minha intenção…
O seu murmúrio deixou-me um peso amargo sobre o peito e, de alguma forma, essa sensação foi substituindo o terror insano que, até ali, me consumira. E depois, como que por milagre, a luz do candeeiro pareceu tornar-se mais brilhante, e o que fora um vulto disforme ganhou formas físicas e contornos distintos.
Por momentos vi-me incapaz de respirar. Mal podia acreditar no que via! Afinal o vulto era humano! Tinha pernas e braços, e cabeça como eu. Os cabelos negros que lhe deviam dar pelos ombros pendiam-lhe agora para a frente. As suas pernas eram compridas, fazendo com que a cama parecesse baixa. E as calças de ganga ruças que vestia combinavam com o blusão gasto e esgaço. Ao seu lado repousava um livro aberto, as folhas voltadas para baixo, e compreendi a origem do desfolhar que escutara: até eu o perturbar ele estivera a ler aquele livro, agora deixado ao abandono.
Uma inspiração profunda elevou-lhe os ombros largos e depois vi-o erguer a cabeça. A dor que se espelhava no seu rosto belo, quase perfeito, deixou-me perplexa. Os olhos, de um castanho dourado como o âmbar, fitaram-me com pena.
- Talvez o melhor seja deixar-te… Mas não tens com o que te preocupar. De certo que enviarão alguém mais competente para o meu lugar - concluiu num tom amargo que, de certa forma, me magoou. Mesmo assim vi-me incapaz de lhe responder, o meu cérebro demasiado atónito com tudo aquilo e, perante o meu silêncio, ele limitou-se a suspirar pesadamente, e ergueu-se num movimento extraordinariamente belo e harmonioso. Tive de inclinar a cabeça para trás, para continuar a fitá-lo. Ele era demasiado alto. - Lamento toda esta confusão… - disse-me num tom de pena sentido. - E lamento ter-te… assustado tanto. Quem me dera que as coisas pudessem ter acontecido de forma diferente. Mas arrependimentos não levam a nada e por isso… Adeus, Aliana.
O meu nome na sua voz deixou-me sem fôlego. Porque ninguém me chamava assim! Ninguém menos ele! E eu já o ouvira antes, chamar-me daquela forma.
Fitei-o confusa e perdida, sentindo o coração bater-me contra o peito com urgência. Havia qualquer que eu precisava de recordar. Algo tão importante como a minha própria vida. Algo que me fugia constantemente.
O sorriso triste que lhe rasgou os lábios foi como um punhal ardente, cravando-se-me no peito. E depois, inacreditavelmente, ele começou a brilhar, como se a sua pele fosse incandescente.
Ele estava a deixar-me!; constatei. Tal como acabara de me dizer que faria. E eu continuava ali, incapaz de reagir.
A onda de desespero que me preencheu deixou-me a soluçar e de respiração descontrolada. Mesmo incapaz de compreender o que estava a acontecer sabia que ele não podia ir e deixar-me ali, sozinha! Simplesmente não podia! E de repente, por entre a dor sem explicação que me dilacerava o corpo, finalmente soube porquê!
- Hazael!! - gritei, erguendo-me de um salto, e olhei em pânico à minha volta. Penas brancas flutuavam lentamente em direcção ao chão, ocupando o local onde, até há instantes atrás, ele se encontrara. O livro permaneceu sobre a cama. - Hazael!- voltei a chamar, insistindo em olhar ao meu redor, apenas para constatar, uma vez mais, que estava sozinha. Os olhos picaram-me penosamente e lágrimas quentes deslizaram-me pelo rosto.- Não… não me deixes… - murmurei entre soluços e as memórias regressaram-me em flashes, agravando ainda mais o meu choro.
Que idiota que fora! Pior! Que cruel! Que fraca!
Recordei as palavras de Vera.
Não é que eu tivesse estado a fingir que ele não existia. Fora pior ainda! Simplesmente esquecera-me da sua existência! E logo dele, que estivera ali por mim, que me acompanhara desde sempre, desde que eu nascera!
Durante muito tempo ele fora de facto uma presença incógnita, e mal acreditara no que via quando, de repente, ele aparecera à minha frente, há cerca de dois anos atrás. Nesse dia de Verão ele salvara-me de morrer afogada, ou pelo menos fora o que eu julgara, até ele me explicar que a razão pela qual me vira incapaz de regressar à superfície do lago, junto do qual passávamos férias, fora, pura e simplesmente, porque algo me prendera… algo que desejava a minha vida… algo que cobiçava a minha Alma.
De lá para cá habituara-me à sua presença. Habituara-me também ao facto de só eu ser capaz de o ver. Ele estava sempre perto de mim… sempre ao meu lado; partilhando a minha vida; sorrindo suavemente. Sentira-me segura, perto dele. Segura ao ponto de esquecer as ameaças de que ele me falara e contra as quais era seu dever proteger-me. E assim fora, até há cerca de um mês atrás.
De repente, vindo do nada, um grupo de criaturas negras e deformadas invadira a minha casa. Ele tentara destruí-las e proteger-me, enquanto os meus pais, ironicamente, viam televisão, tranquilamente sentados na sala. Mas as terroríficas criaturas tinham sido demasiado numerosas. Quando ele quisera tirar-me de casa recusara-me a fazê-lo sozinha e, por esse motivo, ele dera-se a conhecer ao mundo que me rodeava.
Salvar o meu pai e a minha mãe obrigara-o a assumir um papel real nas nossas vidas e, de um momento para o outro, eu ganhara um primo afastado que, subitamente, passara a morar connosco e a frequentar a minha escola.
Desde então a sua vida passara a ser praticamente humana. E não podia espantar-me ou admirar-me com a quantidade de fãs que ele conquistara logo a partir do primeiro dia de aulas. Afinal, ele era simplesmente perfeito, e não apenas a nível físico. Era simpático e atencioso com todos. Era um aluno exemplar em todas as matérias. E, como se isso não bastasse, a aura que o envolvia era aliciante e magnética. O completo oposto de mim…
Mesmo assim, era ao meu lado que ele permanecia, o que forçara muitas das minhas colegas, que até então me haviam olhado com desprezo, a serem simpáticas e cordiais com a sua priminha. E, quando regressávamos a casa, era em mim que ele confidenciava, questionando o mundo humano em que, por minha causa, fora obrigado a viver.
E de repente, há três dias atrás, tudo mudara outra vez.
Limpei as lágrimas com as costas das mãos e solucei amargamente. Era claro que ele me deixara! Só me espantava que não o tivesse feito mais cedo. Era por minha culpa que ele era obrigado a combater aqueles monstros horríveis. Monstros que acabavam sempre por o ferir, embora os seus ferimentos sarassem rapidamente. E eu abandonara-o, sozinho, quando tudo o que ele fizera fora, uma vez mais, proteger-me. Tudo porque, desta vez, o monstro parecera humano. Fora belo, até. E o seu sangue, quando fora ferido mortalmente, fora vermelho como o meu, espalhando-se por todo o lado e derramando-se sobre mim.
O meu estômago revoltou-se, num espasmo.
Entrara em estado de choque. Estava ciente disso. E por isso o meu cérebro traumatizado apagara da realidade que o rodeava tudo o que o pudesse recordar do que acontecera… Tudo incluindo o meu salvador que, com a pele manchada de vermelho e de brilho feroz no olhar, mais me parecera um terrível assassino.
- Hazael…
Deixara de o ver… e ele estivera ali deitado, a noite passada. E naquele dia, na escola… e no café. Fora para ele que a minha mãe colocara o lugar extra na mesa. Fora a sua mão que eu sentira e que me deixara aterrorizada. Fora ele quem me cobrira com o roupão, quando eu adormecera ali sentada.
Deixei-me cair de joelhos no chão, soluçando amargamente.
Eu não queria outro Anjo da Guarda! Se a minha Alma era assim tão importante como ele me dissera, importante ao ponto de ter sido enviado um Guardião para a proteger, então que esse Guardião fosse ele! Porque era a ele quem eu amava; mesmo coberto de sangue e de expressão assustadora. De que outra forma se justificaria que alguém insensível como eu fosse capaz de chorar daquela forma…?
- Por favor, Deus… trá-lo de volta!
Mas se Deus de facto existe, Ele não escutou a minha súplica…
Hoje estou velha e fraca.
O meu olhar, uma vez mais absorto, encontra-se fixo no padrão floral do edredão da minha cama. O ar arrasta-se em sopros lentos e agrestes pelo meu peito. Sei que a vida que me habita se aproxima do seu termo. Mas vivi bem, concluo em retrospectiva.
Fui jovem e inocente. Encontrei quem me amasse e construí uma família. Filhos e netos deixaram o meu quarto, ainda há pouco. O meu companheiro já partiu, pelo que estou sozinha. Fui médica além fronteiras. Ajudei muitos e salvei umas quantas vidas. E, mesmo depois de reformada, continuei a ajudar os que precisavam. Escrevi dois livros sobre vidas e mundos que muitos de nós desconhecemos, e dei a conhecer ao mundo dito evoluído a existência daqueles que sofrem em silêncio. Não trago pesos no peito, como a melancolia ou arrependimento. E sinto-me pronta para embarcar nesta derradeira viagem.
Resta-me apenas um último desejo: voltar a ver o meu Anjo da Guarda.
Ainda recordo vividamente o meu desespero de juventude, depois de ele me ter abandonado tão de repente. Esperei que, tal como ele dissera, outro fosse enviado para o seu lugar… Mas nada acontecera. Ao longo da minha vida foram vários os acontecimentos estranhos que me sucederam, acontecimentos em que julguei sentir a sua presença. Mas, na verdade, nunca mais voltei a vê-lo, embora me tivesse sentido sempre segura e amparada pela memória da sua existência.
Um suspiro deixa-me os lábios secos e ásperos. O meu coração bate fragilmente e temeroso, como as asas de uma borboleta no seu último voo.
- Hazael… pergunto-me se esta era a vida que esperavas que eu vivesse, quando me disseste que eu tinha uma missão a cumprir e que, por esse motivo, foras enviado para me proteger…
A mão suave e quente que pousa sobre a minha cabeça, como se eu não passasse de uma criança, sobressalta-me por breves instantes mas, logo a seguir, deixa-me um sorriso saudoso sobre os lábios.
- Uma vida perfeita, Aliana. - responde-me uma voz quente mas embargada.
Viro o pescoço para o olhar e sinto os músculos da cara distenderem-se-me no sorriso mais brilhante e verdadeiro que me enfeita o rosto, desde o nascimento do meu neto mais novo.
- Vieste para me enviares nesta nova viagem? - questiono e ele sorri-me tristemente. Continua jovem, belo, maravilhoso… tal como o recordo desde o nosso último encontro. O tempo não teve qualquer peso sobre ele. E, tal como então, uma tristeza profunda habita-lhe o olhar cor de âmbar.
Sinto-me ainda mais velha e cansada, o peso de cada ruga que me marca o rosto subitamente físico e palpável. O tempo passara para mim, mas não para ele.
- Nunca te deixei. Jamais seria capaz de o fazer.
Aceno em sinal de compreensão. Sim, eu sei. Sentira-o sempre ao meu lado, ao longo de todos estes anos.
- Mesmo assim, senti a tua falta - confesso e ele volta a sorrir-me.
- Fiz o que era necessário. Porque era inevitável que te amasse, desde que nasceste. Mas jamais poderia permitir que o meu amor por ti pudesse vir a ser correspondido. A tua existência neste mundo é efémera e passageira, e o teu verdadeiro destino aguarda-te, algures neste Universo. Eu, por outro lado, sou perene e um prisioneiro deste mundo. E assim chega que seja eu a sofrer, neste momento de despedida. Agrada-me saber que não te desviei do teu percurso… e fico feliz ao ver-te sorrir e encarar esta nova viagem com alegria, em vez de pena.
Volto a acenar. Compreendo as suas palavras. E esforço-me por manter o meu sorriso, não querendo que ele se aperceba dos meus verdadeiros sentimentos. Porque eu também o amara… e ainda amava… e amara toda a minha vida.
- E perdoar… perdoaste-me? - indago a medo e a doçura do seu olhar deixa o meu coração cansado a palpitar levemente.
- Nunca houve nada a perdoar. Eu é que devia ter-te protegido melhor. Mas ainda sou relativamente jovem e inexperiente. Não que isso possa servir de desculpa. Jamais devia ter permitido que presenciasses o que aconteceu, naquela noite.
Jovem… sorrio levemente. Sim, ele era jovem. E eu estava velha.
- E tu? O que farás quando eu partir?
- Adormecerei, durante uns tempos. Até a minha Alma sarar e o meu coração esquecer que te amou. E depois voltarei a ser enviado para aqui, para proteger e amar outra Alma Humana. Esse é o destino de todos os Guardiões.
Respiro fundo. Sinto-me cansada... algo temerosa. Peço-lhe a mão com um simples gesto e ele apressa-se a cumprir a minha vontade.
- Hazael… obrigada por me teres protegido. Quem me dera poder levar-te comigo nesta viagem. Tenho a sensação de que verei e conhecerei coisas extraordinárias.
- Quem me dera poder ir contigo… - ecoa ele num suspiro. - Mas os Filhos de Gaea nascem e cessam de existir em Gaea. Não somos entidades eternas e evolutivas, como os Humanos. Mas parte de mim estará sempre contigo. Porque a tua Alma foi tocada pela minha. Assim como a minha Alma foi tocada pela tua. E, nesse aspecto, partilharei da tua eternidade.
Deixo os olhos cansados fecharem e sorrio. Não me sinto mais sozinha. Já não tenho medo. A mão que segura a minha é grande e forte. A mão do ser que mais amo.
Sinto-o debruçar-se sobre mim e lábios quentes e suaves tocam-me a testa. O beijo mais terno que já recebi em toda a minha vida.
- Boa noite, Aliana. Bons sonhos e boa viagem.


Sophia CarPerSanti

sábado, 28 de janeiro de 2012

Sou...


SOU...


Sou Vida sobre a Terra
Sou Alma em Aprendizagem
Sou Corpo Terreno e Mortal
Sou Espirito Eterno e Universal

Sou Criança brincalhona e irresponsável
Sou Jovem divertida e curiosa
Sou Mulher inteligente e amável
Sou Idosa sábia, avó extremosa

Sou um Momento, um Instante
Sou prolongamento Infinito
Sou Chama ardente e fulgurante
Sou Oceano calmo e pacífico

Sou a brisa suave por entre as árvores
Sou a terra que meus pés pisam
Sou o voo de todas as aves
Sou as tempestades que se avizinham

Sou Ser Consciente e Inconsciente
Sou corpo Mental e Emocional
Sou Chama Divina, sempre presente
Sou um Ser Humano, comum e banal

Sou Alegria Suprema exuberante
Sou Dor de Alma de tanto Amar
Sou átomos e moléculas, ser pensante
Sou Pó de Estrela, efusão estelar

Sou um habitante da Nave Terra
Que pertence ao Universo em Expansão
Viajo de Mundo em Mundo, de Terra em Terra
Espreitando e vivendo entre esta e aquela Dimensão


sábado, 14 de janeiro de 2012

O Sagrado em Avalon



O Sagrado em Avalon


   
      Glastonbury (Somerset, em Inglaterra) é uma cidade que parou no tempo.

    Considerada uma cidade sagrada, é ponto de peregrinação desde a Idade Média, por constar que foi ali, num Poço Místico, que José de Arimateia, escondeu o Santo Graal, ou o Cálice da Última Ceia de Cristo. É também a Avalon das lendas Arturianas, onde consta que, na Abadia de Glastonbury, um monge encontrou o túmulo do Rei Artur e de sua Rainha, Guinevere, o qual permaneceu no interior da Abadia até à Reforma Religiosa da Inglaterra, quando todos os conventos e monastérios foram encerrados por ordem do Rei.

   Sendo um local turístico, a maioria das pessoas chega a Glastonbury inseridas em excursões. Outras, mais aventureiras, através de mapas e do tão conhecido GPS.

    A chegada à cidade é sempre acompanhada de elevados níveis de expectativa e curiosidade. Os panfletos, recolhidos com antecedência no último ponto turístico, provavelmente em Bristol ou em Bath, acumulam-se no banco de trás do carro alugado, sendo que os pontos-chave assinalados são, como não poderia deixar de ser, a Abadia, o Monte Tor e os Jardins do Chalice Well (Poço do Cálice).

     Imediatamente percebe-se que aquela não é uma cidade comum…

   Relativamente pequena e acolhedora, a rua principal dá entrada para a Abadia, a sua perpendicular polvilha-se de pequenas lojas e, na praça resultante da união das duas, pequenos cafés convidam ao descanso. No entanto a atmosfera é única.


    Nas vitrinas das lojas vêm-se livros sobre Magia, Astrologia, Tarot e Terapias Alternativas. Pêndulos, pedras semi-preciosas e cristais brilham ao serem tocados pela luz do sol. As lojas esotéricas e os restaurantes vegetarianos dominam o comércio. O aroma dos incensos espalha-se pelas ruas e as pessoas sorriem amigavelmente quando se cruzam, mesmo sem se conhecerem.

    Ali, as crenças misturam-se sem preconceitos. Pagãos e cristãos moram lado a lado, frequentam os mesmos locais de culto e respeitam-se mutuamente, numa perspectiva de Amor Universal. Hippies, Padres, Magos e Sacerdotisas percorrem as ruas dentro do espírito fraterno que todas as crenças apregoam e que parece ser tão difícil de pôr em prática.

    O primeiro ponto de paragem é a Abadia de Glastonbury, a primeira igreja cristã nas Ilhas Britânicas, onde, nas criptas deste local místico, o coro da Igreja, trajando as suas túnicas pretas, vermelhas e brancas, ergue as suas vozes em hinos de glória em nome do Senhor.


    De seguida segue-se o monte Tor, uma colina com acesso em espiral que data do neolítico, no topo do qual se encontra a Torre de São Miguel, a única coisa que resta da antiga igreja com o mesmo nome, construída no século XII. Este é um local antigo e ancestral, ponto de culto dos povos pagãos e, segundo a tradição, um Portal para o Outro Mundo, cujo senhor é Gwynn ap Nud.


    Nos relvados que rodeiam a Torre de São Miguel, grupos juntam-se em meditação, contemplação e oração. E, ao pôr-do-sol, os rituais de despedida do dia que termina e de acolhimento à noite que se inicia, ecoam por este lugar sagrado.


    No interior desta Torre, o Aspirante, ainda inconsciente da sua posição, recebe o primeiro sinal que lhe indica que algo está prestes a mudar. Eis se não quando, inesperadamente, insolitamente, das alturas que o rodeiam, cai mesmo a seu lado um pequeno coração de pedra, de laivos brilhantes.


    Perscrutando as muralhas antigas, o improvável, para não dizer impossível, torna-se real. E aquilo que não tem justificação racional deve ser aceite, e integrado, e reconhecido com Gratidão.


     Com o dia a terminar a cidade adormece. Porque aqui não há horas de trabalho pela noite dentro. Aqui respeitam-se os ritmos da natureza, e os ritmos do Homem, que necessita de tempo para si, para a sua família e para a espiritualidade.

     O amanhecer também é tardio, pois há que dar graças pelo dia que se inicia, seja rezando uma Ave Maria, ardendo um pau de incenso, meditando ou agradecendo a vida que Gaia alimenta e suporta sobre a sua imensa superfície.

     As lojinhas, essas, são encantadoras. O sonho de qualquer um, que trilhe os mundos da espiritualidade. E eis se não quando, ao explorar um pouco melhor a cidade, ao passar sob uma arcada pintada por algum artista desconhecido, numa pracinha com a estátua de um Buda de um lado e a de uma Donzela do outro, encontra-se um Templo Perdido.

    A curiosidade que alimenta os passos, à medida que se sobe as escadas, é rapidamente substituída por uma profunda sensação de Reverência. Ali, naquele cantinho afastado do trânsito diário de turistas, a Vibração é intensa, quase palpável.

    Os sapatos ficam do lado de fora e, de porta aberta, o pequeno Templo convida todos os que ali chegam a entrar e a parar, por instantes, para desfrutar do Silêncio e de um momento de Encontro único com o Eu e com as Energias do Cosmos. À esquerda, um Círculo formado por suaves panos de seda, recebe no seu abraço aqueles que vêm necessitados de Cura. À direita, num pequeno altar, decorado com espigas e flores, ardem algumas velas. O semi-circulo que o rodeia é formado por almofadas e, sentadas aqui e ali, pessoas de todas as Raças meditam e oram.

    Este é o Templo da Deusa, da Mãe, da Energia Feminina Criadora, de Gaia na Visão daquela-que-suporta-a-Vida. Aqui não existem imagens, nem ícones. A Divindade não tem nome, nem rosto. É Energia Pura; a Energia que nos rodeia e que nos habita. A mesma que nunca se perde, apenas se transforma, adoptando outras formas. Aqui, o Abraço da Mãe é sentido, amado e agradecido. Aqui todos são Filhos, e todos são Pais, e todos são Deuses. Indiscutivelmente, a conexão encontra-se presente. Neste ponto de Oração a expressão máxima de Glastonbury é ainda mais intensa, mais sentida e, por esse motivo, melhor compreendida. A sincronia deixa o Coração aos saltos, exultante, no reconhecimento de quem, inesperadamente, se vê de volta a Casa. Aqui a Onda Vibratória é a mesma e a linha lúminica que une este ponto Sagrado a um outro, em Lis-Fátima, Portugal, é absoluto, claro e inegável. Quase como se aqui se encontrasse a expressão, no Mundo Físico, do que é guardado nos planos sublimes de Lis. A Mãe encontra-se presente, não só no ar que se respira, mas também nos Corações daqueles que oram naquele lugar.

   Em Contemplação, em Exaltação, o Aspirante inconsciente mal se apercebe da Irmã que ocupou o lugar a seu lado. E por isso, é com surpresa que se vê abordado por esta mulher de cabelos compridos e claros. A partilha é imediata, e muito para além de palavras. A voz que fala é de coração para coração, de Alma para Alma. E assim o planeado foge ao controlo, e o que deveria ser apenas um passeio turístico transforma-se num Curso Sacerdotal e numa Iniciação. O convite é directo, frontal e irrecusável. O reconhecimento também. Os olhos sábios que observam o Aspirante reconhecem nele outras Iniciações Etéricas, e a Dama do Lago é a mesma, quer ali, quer em Portugal. Sem serem necessárias apresentações ou conversas sobre o quotidiano, o conhecimento existe, como se de Irmãs reencontradas se tratassem. Há uma Ligação Superior reconhecida, tanto entre Almas, como entre Vibrações e Centros Superiores. Acima de tudo, há uma Ponte a ser estabelecida. Um regresso à Origem. Uma União de duas partes que, nos Mundos Invisíveis, sempre foram apenas Uma.

   Os Ensinamentos partilhados ao longo dos dias seguintes são de simplicidade, harmonia, conexão suprema com o Universo, mas também, e em especial, com o pequeno que nos rodeia. A Mãe que nos suporta e dá vida também respira, e fala, e ama. Há que redescobrir os Sentidos que permitem ao Homem entrar em sintonia com aquela que, mesmo sem pedir nada em troca, nos envolve e nos abraça, como o Sorriso doce e maternal de Maria. O Conhecimento em si é Ancestral e, de certa forma, lógico, mas, infelizmente, esquecido. Há que reaprender a ser Uno com o Mundo, a compreender e a respeitar os seus ritmos, pois só assim é possível eliminar o atrito e o ruído que nos mantém presos à densidade material que abafa a Luz do Espírito. Aqui sabe-se que a Evolução do Homem passa pelo Amar daqueles que são menores e, aparentemente, insignificantes, e não apenas pela Devoção ao Supremo Criador, ou da Aspiração a níveis de Consciência mais elevados. Porque uma Alma Evoluída jamais negaria o Manto que a acolhe, jamais o ignoraria ou destruiria. E porque ao compreender os Ritmos do Mundo que o rodeia, o Homem passa a compreender os seus próprios Ritmos e os dos seus Irmãos. Somos todos Um, células vivas de um mesmo Organismo, e esta é a Mensagem que deve ser passada e vivida a todos os Filhos de Lis. Não são necessárias grandes Palavras de Sabedoria, nem Templos grandiosos ou Comunidades Espirituais. Tudo o que é preciso é Ver, e não apenas olhar, Sentir, Compreender e Respeitar, vivendo em Harmonia e respirando com a Natureza.

   Embora restasse a sensação de que havia muito mais a aprender, ao Aspirante, agora Iniciado, é ofertado um doce sorriso. Na verdade, não há muito mais a ser dito. Este é um Conhecimento que se encontra impresso no ADN ancestral. Tudo o que é necessário é despertar a Consciência para a sua existência, como quem acende a ponta de um rastilho interminável. Agora, o Iniciado deverá regressar a casa, portando a outra margem da Ponte de Luz que foi criada, a expressão da Ponte Etérica que já existia; levando um pouco de Avalon consigo e deixando, em seu lugar, um pouco de Lis.

   Na despedida é convidado para uma peregrinação silenciosa pelos Jardins Sagrados do Chalice Well. Local de Cura, Silencio e Meditação, aqui encontra-se a fonte inesgotável de água vermelha, cujas propriedades de cura têm atraído viajantes desde os tempos do neolítico.


    Caminhando com os pés mergulhados nesta Nascente Sagrada, a Gratidão é profunda e a certeza da Perfeição Sublime da Geometria do Mundo avassaladora. A água pode ser bebida e levada, sendo uma Dádiva Divina, e o som cantante das suas cascatas é uma Melodia pura e cristalina.


    É junto ao Poço Sagrado, cuja fonte brotou depois de José de Aremateia ali ter enterrado o Santo Graal, que as Sacerdotisas Irmãs se juntam, de mãos dadas, sob as árvores consagradas e sob a maior dádiva dos céus à terra, a chuva. Duas das suas Irmãs preparam-se para regressar a casa e, embora os momentos que partilharam tenham sido breves, o Elo é real e palpável. Além disso, o espaço e a distância nada dizem nem ao Coração nem à Alma. E a Vida é como o Mar, traz e leva e volta a trazer, consoante as marés do Destino.

Poço Sagrado

    Como que para o comprovar, e uma vez mais inesperadamente, duas ofertas foram preparadas. Um medalhão com o símbolo que guarda a cobertura do Poço Sagrado, o Vesica Piscis, que representa a união do Mundo Espiritual com um Mundo Material, no centro do qual se encontra o Homem. E um anel dourado com o símbolo da Flor-de-Lis, em nome da Ponte estabelecida, e o qual surge aqui e ali, por toda a cidade, em azulejos e pinturas antigas, representando a Mãe, tal como foi adoptado por Garcia IV, Rei de Navarra, que o passou a usar como símbolo do seu reinado, após ter sido curado de uma grave doença depois de ter tido uma visão da Nossa Senhora desenhada no fundo de um lírio.

   E assim o fim de um Ciclo marca o início de outro. Para trás fica Glastonbury e as suas lojinhas, Avalon e as suas Brumas e Mistérios, e a Ilha Sagrada, agora uma nova casa, onde Irmãs de Tempos Imemoráveis aguardam um novo Regresso.


Sophia C.*

domingo, 8 de janeiro de 2012

Testemunho de uma Árvore


Sou Yeluar, a árvore mais velha de uma floresta que outrora existiu. No meu tronco, nas minhas folhas, ficaram marcados todos os dias, todas as semanas, todos os meses, estações e anos, ao longo dos tempos. As minhas flores cantaram e dançaram sob o azul de um céu que já não vejo existir. Vi nascer e morrer muitas outras árvores que, como eu, foram testemunhas da implacável destruição e devastação, do crime e do terror que sobre nós se abateu.

Antes tudo era verde, os pássaros cantavam pousados sobre os meus ramos que se erguia com orgulho, como grandes braços numa prece em direcção aos céus. O sol nascia por trás das montanhas e, como uma luz infinita, banhava as nossas folhas com reflexos de ouro. O rio murmurava segredos por entre a erva e muitos eram os animais que nele se saciavam. Quando o Inverno chegava, tudo se cobria de branco, e os meus ramos, já sem folhas, brilhavam cobertos de gelo, à luz de um sol prateado. O rio congelava, transformando-se no mais perfeito e silencioso dos espelhos. Mas logo surgia a Primavera, doce e suave, e tudo renascia de novo. Seguíamos uma ordem harmoniosa e os ciclos seguiam-se naturalmente. À noite sucedia o dia, e a seguir ao dia chegava a noite, calma e serena, com o seu céu salpicado de pequenos pontos brilhantes. A lua surgia onde antes o sol reinara. Ouvia-se o som misterioso do canto dos seres nocturnos e a canção da vida daqueles que caminhavam durante o dia. Tudo era correcto e livre. Seguíamos o nosso curso natural e éramos felizes.

Contudo, sem que desse conta, os tempos mudaram.

Um dia recebemos estranhas visitas e a poderosa e densa floresta abriu-lhes o coração, partilhando inocentemente os nossos segredos e mistérios. No princípio, os nossos visitantes seguiram as regras da paz e harmonia. Afinal, eram apenas mais uma espécie, por entre tantas outras. Mas não demorou muito para que os seus números aumentassem, e as regras começaram a ser infringidas. Autointitularam-se soberanos do mundo e fizeram da floresta o que queriam e desejavam. Destruíram, mataram, e o que em tempos fora um mar eterno de verde fulgurante, rapidamente se tornou numa pequena mata. O rio deixou de cantar, as suas águas cristalinas escureceram, o seu curso foi desviado e a vida acabou por o abandonar. O céu deixou de ser azul e ganhou uma tonalidade cinzenta. A noite, essa, deixou de ser tão negra e os seus salpicos brilhantes perderam a luz. A seguir surgiram estradas, fábricas, prédios, e a pequena mata passou a ser um jardim.

Da minha floresta nada restou, para além de mim. Colocaram uma cerca em volta do meu tronco, que dizem ser para me proteger, e aqui estou eu. As forças já me faltam. Já não tenho folhas para escrever o meu testemunho. Apenas me resta uma, pálida, engelhada e frágil. Os meus olhos deixaram de ver o sol brilhante e dourado. Já não sou forte nem viçosa, como me recordo de ter sido. As minhas únicas companhias são dois pardais, que quase asfixiam devido à poluição que contamina o ar. Mas em breve tudo terminará. E quem é que se importa? Durante anos e anos dei as minhas folhas ao vento, para que levasse as minhas súplicas para longe, mas quem é que as ouviu? Hoje dou a minha ultima folha e o meu último suspiro.

Olho agora para um céu outrora azul e recordo o cantar dos pássaros, o murmurar do rio, o sol dourado e a magia do vento por entre as minhas folhas. Este último sonho embalará o meu último alento de vida. Tudo era belo… mas já não é…

Adeus mundo. Adeus…


1996