Noite da Alma - Booktrailer

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Ansiedade Infantil/Juvenil


Ansiedade Infantil/Juvenil

No mundo actual, regido pelo imediatismo e onde, todos os dias, são várias as exigências sociais impostas, numa crescente disputa por um lugar ao sol, tornaram-se comuns o surgimento de patologias associadas ao stress e à ansiedade. Porém, ao contrário do que se possa pensar, não são apenas os adultos que se encontram vulneráveis a estes factores causadores de perturbações psicológicas, afectivas e comportamentais. Também as crianças e jovens são vítimas deste mal da actualidade, dando origem, assim, ao conceito de Ansiedade Infantil.

Mas o que é a Ansiedade?


De um modo geral, a Desordem de Ansiedade caracteriza-se por um estado de ansiedade crónico, habitualmente infundado, intenso para além do considerado normal ou desproporcional em relação aos factos/acontecimentos que se encontram na sua origem.


Habitualmente, expressa-se através de uma preocupação excessiva, incontrolável e frequentemente irracional, de tal maneira forte e intensa que interfere na vida e actividades do dia-a-dia da criança ou jovem que sofre desta perturbação.

Muitas vezes, a Desordem de Ansiedade expressa-se através de sintomas físicos, como a fadiga, a agitação, dores de cabeça, náuseas, tensão muscular, dores musculares, dificuldade de engolir, falta de ar ou dificuldade em respirar, tremores, irritabilidade, transpiração excessiva, insónia, perturbações do aparelho digestivo, etc.


Sendo uma das perturbações psicológicas mais comuns nos escalões etários infanto-juvenis, nas crianças a ansiedade exprime-se muitas vezes por um sentimento vago e desagradável de medo e apreensão, que surge associado a uma tensão ou desconforto, e que tem como base a antecipação infundada de perigos inexistentes. Leva a sentimentos de medo, stress e a uma insegurança sem razão aparente.

Contudo, as crianças, em geral, não têm noção do ponto em que os seus medos se tornam exagerados ou irracionais, pelo que é essencial que se leve em conta a duração dos sintomas, a adequação (ou não) dos medos à idade da criança, e a influência dos mesmos nas actividades do dia-a-dia, antes de se partir para um diagnóstico clínico

A ansiedade pode ainda associar-se a outras desordens como sejam problemas comportamentais, depressão, transtornos do desenvolvimento, quebra do rendimento escolar, dificuldades de concentração, entre outros.
De um modo geral, caracteriza-se por um sentimento de desesperança face à incapacidade de prever, controlar ou obter os resultados desejados em determinadas situações ou contextos.

A causa dos transtornos da ansiedade nas crianças e jovens é, muitas vezes, desconhecida e certamente multifactorial, sendo provocada por um conjunto diverso de factores. O Modelo da Tripla Vulnerabilidade de Barlow, surge exactamente na tentativa de agrupar estes factores, procurando ajudar a prevenir o surgimento desta perturbação.
Assim, segundo Barlow, existem três factores de risco distintos que podem contribuir para o surgimento da Perturbação da Ansiedade:

1. Vulnerabilidade Biológica


Ou seja, a predisposição inata (desde o nascimento) para o surgimento da ansiedade devido a factores genéticos.
Aqui inclui-se a influência do temperamento, que pode levar ao surgimento de comportamentos e percepções ansiogénicas (explo. Crianças mais medrosas), e da afectividade negativa (sentimentos negativos mesmo na ausência de factores de stress): baixa auto-estima, sentimentos de incapacidade, falta de persistência, dificuldade em lidar com as ‘derrotas’, etc.

2. Vulnerabilidade Psicológica Generalizada


Ou seja, sentimento de perigo ou ameaça incontrolável ou imprevisível; percepção de falta de controlo e percepção das experiências como ameaçadoras.
Esta vulnerabilidade tem como base a relação entre a ansiedade e o sentimento de imprevisibilidade, percepção esta que tem origem nas experiências vividas durante os primeiros anos de vida, à medida que a criança vai aprendendo e desenvolvendo diferentes níveis de controlo (ou falta deste), sobre os objectos e sobre o mundo externo.

À medida que a criança cresce, estas experiências determinam o surgimento de sintomas ansiogénicos na criança. Crianças que adquirem maiores níveis de controlo sobre o mundo exterior têm tendência a ser mais seguras de si e menos medrosas. Por outro lado, crianças que não adquirem elevados níveis de controlo sobre o mundo externo têm, logo à partida, uma maior probabilidade de virem a ser mais ansiosas e medrosas.


Como prevenção contra esta vulnerabilidade, salienta-se a importância da modelagem familiar e social (exemplos observados pela criança; em especial os pais, educadores e outras crianças de idades aproximadas), bem como o estilo parental educativo e o tipo de vinculação precoce estabelecido nos primeiros meses de vida.

3. Experiências Directas ou Vulnerabilidade Psicológica Específica


Ou seja, situações anteriores traumáticas, ou provocadoras de grande ansiedade, como sejam acidentes, morte familiar, divórcio, mudança de casa ou escola, agressão ou maus tratos, entre outros.

A vulnerabilidade psicológica específica encontra-se ainda, muitas vezes, associada a factores educacionais, como condicionamentos e a transmissão de informação negativa (explo. Uma criança que cresce a ouvir dizer que cães são perigosos manifestará comportamentos ansiogénicos quando se deparar com um cão, ou com outros animais que, para a criança, se assemelhem ao cão. De igual modo, uma criança que é castigada por mexer numa faca, poderá vir a desenvolver medos associados a objectos cortantes.).

Note-se, no entanto, que o aparecimento de um destes factores de vulnerabilidade não implica que o indivíduo desenvolva uma desordem de ansiedade. Da mesma forma, um indivíduo que demonstre as três vulnerabilidades não é necessariamente um indivíduo ansioso, possuindo sim, um elevado risco de desenvolver uma Desordem de Ansiedade.


A intervenção em casos de Desordem da Ansiedade deve ser o mais precoce possível, pelo que esta pode ser tratada através de Terapia Cognitivo-Comportamental. De um modo geral, crianças que sofrem de perturbação da ansiedade, e que não são detectadas durante os estádios infanto-juvenis, têm tendência a desenvolver patologias mais graves como sejam fobias específicas, depressão, desvios comportamentais e comportamentos obsessivo-compulsivos, tanto na adolescência como na vida adulta.

Os pais têm, como sempre, um papel fundamental, tanto na prevenção como na identificação deste tipo de patologia, sendo essencial que se mantenham atentos às flutuações comportamentais dos seus filhos, oferecendo-lhes um ouvido atento sempre que necessário e apoiando-os na resolução de problemas.

- Sophia C.*


Hiperactividade Infantil

Hiperactividade Infantil

Actualmente é muito comum encontrarem-se crianças diagnosticadas como hiperactivas. Trata-se de uma das perturbações infantis mais assinaladas dos finais do séc. XX, e são várias as crianças medicadas e acompanhadas por psicólogos e psiquiatras diagnosticadas como hiperactivas.

Mas o que é a hiperactividade?

A hiperactividade trata-se de um transtorno, denominado de Transtorno do Deficit de Atenção com Hiperactividade (TDAH),e é uma síndrome neurobiológico (do foro biológico e químico do cérebro) e não apenas um aspecto comportamental, pelo que a criança não pode ser culpabilizada pelos sintomas apresentados, sendo estes involuntários e compulsivos. A hiperactividade pode afectar tanto crianças, como jovens ou adultos, sendo mais comum em idades até ao final da adolescência.
Assim, este transtorno caracteriza-se pelo aparecimento de sinais claros e repetitivos de desatenção, inquietude e impulsividade, mesmo quando a criança tenta não mostrá-lo.
A criança com Deficit de Atenção muitas vezes sente-se isolada e segregada pelos colegas, e não é capaz de compreender por que é tão diferente, ficando perturbada ao confrontar-se com as suas próprias incapacidades. Uma vez que, muitas vezes, estas crianças não são capazes de cumprir as tarefas normais de uma criança (na escola, no recreios ou em casa), podem vir sofrer de elevados níveis de stress, tristeza e baixa auto-estima.
São várias as características próprias apresentadas por estas crianças. Por um lado, têm tendência a ter um pensamento original, a serem criativos, a serem imprevisíveis na sua forma de resolver problemas, são persistentes e resilientes, e geralmente afectivos e generosos.
Embora possam demonstrar ter dificuldades de aprendizagem, podem ter uma inteligência acima da média para outras coisas, pelo que o seu insucesso escolar não se prende necessariamente com incapacidade deretenção da informação ou dificuldades de compreensão.
As maiores dificuldades apresentadas por estas crianças passam pela dificuldade de passarem da ideia/projecto à acção. Os seus insucessos repetidos levam ao desenvolvimento de uma falta de iniciativa e pouca ou nenhuma tolerância à frustração.
Têm dificuldades em fazerem-se entender e em explicar os seus pontos de vista, e não são capazes de gerir o tempo, de modo a maximizá-lo para a concretização das tarefas do dia-a-dia. Apresentam uma grande necessidade de adrenalina, a qual muitas vezes buscam através da actividade física excessiva ou através do início de conflitos com os pais, professores ou colegas. De um modo geral, têm tendência a isolar-se e raramente conseguem aprender com os seus erros.
A desatenção característica deste transtorno leva a uma falta de atenção para os detalhes, à falta de concentração e à dificuldade em seguir regras e instruções. Estas crianças raramente terminam o que começam, são desorganizadas, evitam actividades que exijam um elevado esforço mental, distraem-se facilmente com coisas ou actividades alheias à tarefa que se encontram a desenvolver, esquecem-se de compromissos e tarefas, e têm uma grande dificuldade em planear a curto e longo prazo.

Por outro lado, a hiperactividade e a impulsividade implicam que a criança não seja capaz de permanecer sentado por muito tempo, que sinta necessidade de correr excessivamente, seja barulhenta e agitada, fale em demasia e sem pensar ou construir um diálogo necessariamente lógico, responda às perguntas antes de estas serem concluídas, intrometa-se nas conversas ou brincadeiras dos outros e tenha dificuldade em esperar pela sua vez.

Para se diagnosticar um caso de TDAH é necessário que o individuo em questão apresente pelo menos6 dos sintomas de desatenção e/ou6 dos 9 sintomas de hiperactividade descritos pela medicina actual, além de que esses mesmos sintomas se manifestem em pelo menos dois ambientes diferentes (casa, escola, clubes, recreio, etc.) e por um período superior a 6 meses. O diagnóstico é fundamentalmente clínico e deve ser realizado por um profissional (Psicólogo ou Psiquiatra) que conheça profundamente o assunto, e o qual, necessariamente, descartará outras doenças e transtornos possíveis, que possam apresentar sintomas semelhantes, de modo a que o tratamento seja o mais adequado.

Actualmente, o termo hiperactividadetem sido muito popularizado e muitas crianças são rotuladascomo hiperactivas erroneamente.
Muitos dos comportamentos de agitação e desatenção infantil actualmente verificados resultam, sim, da falta de imposição de limites, por parte das figuras de autoridade, e são de natureza emocional e psicológica, sendo muitas vezes confundidos com a patologia diagnosticada como hiperactividade.
Nestes casos, trata-se de um distúrbio emocional, desenvolvido ao longo da vida devido a um motivos específico, o qual, por mecanismo de defesa, se exprime através de sintomas semelhantes com a hiperactividade, como a agitação e a falta de concentração. Assim, os sintomas são um alerta de que algo não está bem, na vida da criança, o que pode incluir mau ambiente familiar, falta de tempo e espaço para brincar ou a falta de regras adequadas e consistentes por parte dos pais.
Um “não”, por parte de uma figura de autoridade, deverá ser mantido e suportado, pois quando tal não acontece, a criança torna-se incapaz de adquirir os limites que delimitam o que é um comportamento apropriado e o que é um comportamento inapropriado, de acordo com o meio em que se encontra, levando a manifestações desadequadas, como a indisciplina, a falta de respeito, a incapacidade de seguir e cumprir ordens, e a falta de capacidade de levar a cabo tarefas que não sejam do seu agrado; comportamentos facilmente confundidos com os sintomas da hiperactividade.

Acima de tudo, é importante nunca esquecer que todas as crianças apresentam momentos de desatenção e impulsividade, podendo exibir níveis de energia demasiado elevados, de vez em quando.
Assim, é essencial que os pais compreendam que dar limites aos seus filhos é dar amor, o que é fundamental para o desenvolvimento harmonioso de uma criança. A falta de tempo e de atenção para com os filhos, que caracteriza a maioria das famílias da actualidade, gera sentimentos de culpa e frustração nos pais, os quais tentam compensar os filhos através da concretização de todas as vontades das crianças, suprimindo os aspectos mais afectivos.
Este não é, no entanto, o caminho mais adequado para a formação de uma criança, processo que deve ser contínuo e congruente.
O ideal é dar atenção e carinho, por mais difícil que isso seja, ao fim de um longo dia de trabalho, ter tempo para ouvir e explorar as conquistas da criança e tentar perceber quando a criança manifesta dificuldades, suportando-a na resolução dos seus problemas.
As regras impostas para a gestão da vida da criança não devem ser excessivas, nem vagas (“porta-te como um bom menino”), e não devem ser transmitidas em tom de ordem ou irritação, mas sim como um desejo, não um favor, o qual se espera que a criança seja capaz de cumprir (“quero que fiques sentado” não é o mesmo que “por favor, fica sentado” ou “senta-te!”). Deve-se sempre reforçar positivamente as conquistas da criança e evitar critica demasiadamente severas ou persistentes, procurando que estas sejam sempre construtivas e educativas (não basta dizer que está mal, há que indicar o que está correcto, também).
O ideal seria que os pais se interessassem pelas tarefas da escola, a qual faz parte de grande parte da vida da criança, ajudando nas tarefas escolares e na organização da sua rotina, promovendo um ambiente adequado ao estudo e apresentando um nível de exigência compatível com o desempenho da criança. Por outro lado, é imprescindível incentivar o brincar e não focar a interacção com os filhos apenas nas obrigações escolares, mantendo uma postura de protecção e incentivo da independência da criança.
- Sophia C.*